Pode apostar que ainda sou todo teu.

Aproxima-se. Vem como uma locomotiva desgovernada, ensandecida, deve descarrilar e bater de frente ao muro, veloz, imparável, a todo vapor. E quanto mais perto, mais atração pelo impacto, mais interesse pelo choque, pela batida. Vai bater! Vai bater de frente, vai me partir em pedaços e vai estragar toda a lataria. Não vai sobrar nada. Não vai sobrar nem um passageiro. Vem se aproximando como um animal rondando, sorrateiro, veloz. Prenuncia um ataque, um bote. Vai chegar e vai estragar tudo, vai sair do meio da neblina e da chuva fininha, do céu nublado, do paredão de prédios que parece não ter fim. Vai ser o fim.
E parece que é sempre assim. Aguardo estas sete horas de deslocamento todas as vezes do mesmo jeito. Me sinto sempre prestes, e elas vão se aproximando, chegando mais perto, tocando minha mão e aproximando sua boca da minha, já fechei os olhos, já estou sentindo seus lábios e sua respiração, não demora e somos um. Não demora e me perdi entre eu e você, entre o que eu sou e o que eu fui - ...quero ser.
São leves as suas respostas, e elas vem em outra língua - japonês, inglês, francês... espanhol até agora não. Suas cores e sabores, toques e gorjeios - tenho horror a aves e animais voadores - me elevam e me chateiam, me amassam e me põe pra lavar, secar e de volta ao guarda-roupa. Nunca esperei tanto pela umidade. Estou seco.
Você veio invadir o meu novo espaço. Você se inseriu na minha paisagem, você molha os meus sapatos, você preenche a parte de cima do meu viaduto. Você se insinua no corpo dos outros, me seduz na vidraça do ônibus, me pergunta se estou com saudade falando sobre greves, paquidermes, monstros de bolso, ritos de passagem e conquistas. Volta pra mim. Você diz: volta pra mim.
Eles sempre voltam.

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