Tchbum!
Foi até a ponta da prancha. Olhou o mar lá em baixo, sentiu a ponta do sabre as costas. Não tinha mais volta. Era aquele azul faminto pronto para engolir-lhe para todo o sempre, talvez fazendo parte do cenário de algum velho navio naufragado, ou do covil de uma lula gigante, como um esqueleto de um infeliz, carregado pelas ondas, morto sabe deus por que, encontrado nunca mais nas profundezas do oceano.
Ouvia os gritas de fúria dos outros piratas as suas costas, ouvia o barulho das ondas no casco, ouvia o ranger da prancha. Queria muito ser capaz de olhar para o céu, de prestar contas ao senhor deus ou sabe-se lá que divindade proteja os piratas, mas a vertigem não permitia. Pensava nas moedas de ouro que jamais encontraria, nas garrafas de rum que jamais beberia, nas lutas de espada que jamais venceria, nas belas mulheres que jamais seduziria. Pensou em conchas, em estrelas-do-mar, em barcos de papel. Revirou sentimentos outrora inexistentes, como a certeza de ter visto e ouvido, certa noite, uma sereia cantando no mar muito próxima ao seu barco, os cabelos molhados escorrendo enquanto os dedos tocavam a proa. Sonhou com arpões, em caças baleias, em velejar pelos mares gélidos da Noruega. Imaginou o mar vermelho como sendo realmente vermelho e se sentiu um tanto quanto infeliz por saber que jamais poderia vê-lo dessa ou de qualquer outra cor.
O sabre o levou pouco mais pra frente. O coração fez uma pequena pausa, a coragem invadiu seus pulmões, ele saltou por si próprio e não por obrigação de nenhum pirata barbudo e peludo que achava que mandava em sua vida. Não. Pulava agora para se encontrar com os seres místicos do oceano, para ver a baleia azul, para habitar o glorioso oceano, por pouquíssimo tempo que fosse, como o tão grandioso animal. Era agora um bicho que descia, vertiginosamente, em pé, de encontro à água azul escura, ao frio de quebrar os ossos, aos tubarões, aos cardumes, à falta de solo até tantos metros de profundidade. Saia do seguro e do seco pra entrar numa outra curta e intensa, de uma vez só, pra uma morte prevista e esperada que garantia que o frio, o baque e a dor fossem apenas experiência de um ser aquático.
Pedro sentiu os pés baterem no fundo da piscina de mil litros e a mãe dele brigar em seguida pelo aguaceiro no quintal.
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