Feito papel machê
Endureci. Nesses seis meses sozinho, posto pra secar, passei de massa disforme a objeto. Todo o líquido que de mim pingava secou. Impossível extrair qualquer outra gota. Pode me apertar o quanto quiser, não sai mais nada. Estou impecavelmente seco.
Ninguém nota, mas por dentro eu sou complexo, cheio de camadas independentes. A extrema dureza é só externa, eu sou feito nessa intenção de enganar mesmo. De ninguém saber que o que parece tão firme por fora é tão desfigurado por dentro. Me perfurar e conseguir passar qualquer coisa por dentro de mim sem que essa se perca nas minhas entranhas é algo complicado.
Não faço barulho quando caio no chão. Pareço até meio fofo, de certa forma, eu sou duro de uma forma que ao bater não produz ruído, independente do impacto. Pode me jogar no chão, e o ruído não vai ser duro, uma pancada. Vai ser amortecido, esquisito, como quem se recusa a gritar.
Agora que estou seco, que me pegam pra usar, fazem pouco caso. É só um amontoado de papel, cheio de cola. É só isso que ele é.
E pensar que pouco antes desses seis meses de exílio desensopante alguém veio com carinho e construiu sobre o amassado que eu era as três camadas, lindas, pacientemente, uma a uma. Queria ver se fosse possível eu voltar ao estado original de amarfanhamento total e ver se o atual me pegaria na mão devagar, seguraria nas pontas dos dedos, cortaria o jornal em pedaços muito miudinhos e recobriria-me centímetro por centímetro, paciente, sabendo que leva tempo e que eu não posso ser manuseado logo depois de feita uma camada. Que eu preciso secar pra endurecer, e que a última camada leva tempo.
Não. O presente vem com tudo pronto, só faltava vir embrulhado e com um laço em cima. Um verdadeiro brinquedo.
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