Conto instantâneo tipo teste de gravidez farmacêutico
Volta e meia vinha o rapaz com a aspirina na mão, ainda segurando o troco:
- Moço, certeza que não mata?
- Absoluta.
Era corriqueiro, já. Dava pra ter certeza que, dois ou três dias depois, estaria o adolescente de uns dezessete anos a me perguntar se aspirina matava. No começo estranhei, achei meio estrambólico, meio exótico. Não questionei-o, mas mantive a dúvida pra mim mesmo. Sabe-se lá por que Deus colocou na terra uma figura que tinha medo de aspirina mas que vivia a comprá-la. Medo do conhecido, nesse caso talvez até medo do familiar. Pavor de que a aspirina corresse a casa atrás dele? Não sei, mas o rapaz voltava sempre.
- Moço, certeza que não mata?
- Mata não.
Parecia vir pra me gozar, rir da minha cara nas entranhas do quarto escuro, já fazendo coleção de aspirinas e de imagens mentais da cara de palerma que o atendente da farmácia - eu! - fazia ao desmanchar as suspeitas assassinas que o rapaz tinha sobre o comprimido. Pois bem, não ia nadar contra a corrente, que risse de mim até onde quisesse, que viesse todos os dias e perguntasse, não estava mesmo dando a mínima. Venha, pergunte-me se aspirina mata!
- Moço, certeza que não mata?
- Claro que mata, rapaz. Estou te enrolando faz seis meses pra tomar esse veneno lento e sumir da minha vida de uma vez por todas.
Ele me olhou pesaroso, e saiu. No dia seguinte foi encontrado morto, com um testamento ao lado do corpo:
"Deixo a minha dívida da farmácia ao filho-da-puta que queria me matar. Queria mas não conseguiu, otário!".
Ao menos ele nunca mais voltou.
Comentários
Poisé, nesse mundo cão até as aspirinas causam esses incidentes O.o
Falando em aspirina, você me deu uma idéia de texto. Aguarde.
*Vidrinho de energético da Luana na mão*
- Moço, certeza que não mata?
- Não, não mata, não...
- Moço, como que usa?
- Você abre, abaixa a tampinha vermelha, agita, e toma.
- Moço, mas o senhor tem certeza que não mata mesmo?
- Tenho certeza absoluta.
*na escola, a "turminha" toda agitava para que ele virasse logo aquele liquido(zinho) vermelho cintilante, goela abaixo*
E assim aconteceu...
DIAS DEPOIS... (6)