Categóricamente autoritário e idiota
E entrou o figurão, usando uma farda linda digna de Camilo Raposo, daquelas que se duvidar foram produzidas no último milênio e guardadas com zelo e naftalina em algum armário de época de um casarão também de época de São Paulo. A farda, pobre objeto inanimado, usava uma coleção de medalhas, distintivos, condecorações, broches, e mais uma infinidade de coisas que se podem prender com facilidade à fardas de militares. Uma coleção, mesmo, eram realmente muitos e eu se quer me dei ao trabalho de contar. A coleção, a farda e o figurão, como eu disse, entraram. Pela porta da frente.
O ônibus, que não estava suficientemente vazio para todos ficarem sentados, nem completamente cheio para que todos duvidassem do bom-senso humano de entrar em ônibus ridiculamente lotados de pessoas que possivelmente não descobriram ainda como usar um desodorante, tinha a parte dianteira, contando nisso todos os bancos, todo o espaço, vazia. E o figurão lá, com a farda a vesti-lo e a coleção de objetos a vestir a farda, completamente espaçoso, ocupando dois bancos. Supôs-se que ele fosse descer em algum ponto longínquo, pelo fato de que se sentava como se preparasse algum ritual sonolento que duraria horas até alguma parada. Não deu outra: no ponto seguinte ele havia levantado, dado sinal para o ônibus parar - estando lá na frente mesmo - , e resolveu que ia sair sem pagar, sem ter pedido a carona.
O motorista, estupefato com tal audácia (ou talvez fosse apenas a coleção de coisas na farda que o espantasse), não reagiu. Deixou o ônibus parado no ponto, enquanto todo mundo da parte traseira já havia descido, mas com a porta dianteira bem fechada e aparentemente sem muita vontade de abri-la.
- E então? - perguntou o figurão, pomposo como só a farda milenar lhe permitia, talvez ainda com o cheiro de naftalina que a salvara de traças.
O motorista, ainda com os olhos no senhor que lhe impunha uma carona, resolveu não dizer palavra. Com a porta ainda fechada, pôs o ônibus a funcionar. Foi a vez do figurão ficar estupefato - possivelmente se perguntando de onde vinha a audácia do motorista, ou talvez apenas pensando que carregar duas toneladas de medalhas na farda por duas quadras seja algo trabalhoso. Ele olhou fixamente para o motorista, que dirigia calmamente como se não houvesse um oficial militar cheio de penduricalhos e muito ódio a bufar-lhe o pescoço.
Um sonoro "Olha aqui" invadiu o ônibus, irrompendo da boca do senhor fardado e enfeitado à lá arvore de natal, e isso foi o início de um sermão que pretendia ter o fim com uma porta se abrindo e uma carona acontecendo, sem pressão, sem problemas. Não foi o que aconteceu. O Motorista ignorou os outros dois pontos, onde não havia ninguém tanto para descer quanto para embarcar, e continuou seguindo.
Um "Você tem noção de com quem está lidando?" foi expelido numa fútil tentativa de acertar o motorista. Conseguiu acertar, mas não com as palavras, e sim com muitas e muitas gotículas de cuspe. Um dilúvio de saliva. As palavras não foram ignoradas, todavia, apesar de não terem acertado o condutor do ônibus. Este respondeu de bom humor: "Não faço idéia, e não acho que vá fazer alguma diferença. O senhor não é idoso, o senhor não tem problemas de saúde que lhe recorram usar o ônibus para ir ao hospital, o senhor não é uma criança menor de cinco anos, também não é carteiro, não é coletor de lixo e também não é motorista de ônibus. Portanto, o senhor paga a passagem, se quiser descer.".
Para todas as pessoas que se encontravam assistindo o show na parte de trás, isso foi o fim da picada, a ida até a forca, o ligar da cadeira elétrica. O condutor seria linchado, ouviria muita coisa do figurão até o ponto em que desistiria de enfrentá-lo e, pelo bem maior, abriria a porta e deixaria ele ir, talvez para o outro lado da rua, pegar um ônibus em sentido contrário, também de carona. Foi exatamente o que aconteceu.
Mas, apesar de quase três pontos depois, o senhor, a farda, e sua coleção de apetrechos metálicos, desceram os três, unidos e bufando, de graça.
Comentários
Se aconteceu de verdade, só pode ser em Diadema, se não aconteceu você deve ter baseado a história no nosso dia-a-dia, pegando ônibus pra ir e voltar...
Acho que eu ja até vi esse ser humano, com mil e um penduricalhos. *acha que escreveu errado, mas normal*
Adorei o texto super bem redigido como sempre, e muitissimo comico...
Resulmindo amei!
s2
amOh
Hahaha, ótimo texto, realmente, se bem que tem uns motoristas/cobradores tão mal-encarados que acho que forçariam até Chuck Norris a pagar a condução só por meio de intimidação ._.
No mais, bom texto, consegui dar umas risadas =3
E aliás, QUE ABSURDO, subiu o preço do metrô. Ninguém merece viu /indignasao